Jennifer Brown é uma autora norte-americana que vive atualmente no Kansas, Missouri, e costumava explorar seu lado humorístico em colunas de jornal, mas que aborda temas nada cômicos em seus livros.
De uma forma impactante e real, mas ainda assim delicada, em seu primeiro livro, A Lista Negra (2009), Jennifer traz para o leitor a vida de Valerie, uma adolescente vítima de bullying que tem que dar continuidade à vida depois do massacre promovido pelo namorado no colégio onde estudavam. Nick usou a lista que eles fizeram juntos como inspiração, e Val vai parar no centro de um furacão, sozinha, oscilando entre os papéis de vilã e heroína, já que foi ela quem conseguiu parar Nick, mas também quem começou a lista que continha os nomes daqueles que detestava. (Veja a resenha dele aqui)
Nessa entrevista com a autora do livro que se tornou meu queridinho (e, realmente, isso não é segredo para ninguém), Jennifer dá sua opinião sobre seus personagens, diz que sua  própria experiência com bullying serviu de inspiração e ainda que adoraria visitar o Brasil.
ÚLTIMO ROMANCE: Você
não foi sempre uma autora de livros para jovens em tempo integral, certo?
Conte-nos um pouco sobre como era sua rotina antes e como e por que decidiu
mudar.
JENNIFER BROWN: Eu fui uma mãe dona de casa por cerca de 12
anos, então, não, eu não fui sempre uma autora de livros para jovens em tempo
integral. No entanto, durante esse tempo, eu estava sempre escrevendo e
tentando ser publicada, então minha rotina não mudou tanto assim. Se passaram 9
anos entre o tempo em que decidi tentar ser publicada até eu realmente ter sido
publicada.
UR: Bitter
End, seu segundo livro, fala sobre o relacionamento abusivo entre dois jovens. Para você, qual a importância de falar sobre isso?
JB: É sempre importante para mim abordar em meus
livros problemas que são relevantes para os adolescentes e que podem
eventualmente ajudá-los a sair de uma situação ruim. Se eu posso dar a alguém a
esperança ou coragem para sair de um relacionamento abusivo através de meus
personagem, estou feliz.
 
UR: Em A
Lista Negra, apesar de Nick ter feito uma coisa realmente horrível, é possível
ver nele uma pessoa de verdade, claro, com lados bons e ruins. Valerie nos mostra
seu lado doce, romântico e triste. Por que mostrá-lo
dessa forma? Acha que a vida que ele levava fez com que seguisse o caminho que seguiu?
JB: Eu acho que um monte de coisas surgiram juntas
para fazer Nick do jeito que ele era. Sua vida em casa não era maravilhosa, ele
estava deprimido, com raiva, suicida, e possivelmente mentalmente abalado. Ele estava
se envolvendo com drogas e saindo com uma má influência, e apenas estourou. Então
eu não acho que foi uma coisa qualquer que o fez fazer o que fez. Acho que foi
um monte de coisas. Foi importante para mim mostrar que Nick tinha lados bons e
ruins, porque acho que é assim com a grande maioria das pessoas. Todos nós
temos lados bons e ruins, e se eu pudesse mostrar que Valerie podia ver os dois
em Nick, não havia nenhuma razão para que ela não pudesse eventualmente ver os
dois em Jessica, ou qualquer dos outros personagens. De certa forma, esse era o
tema do livro — ver as pessoas por quem eles realmente são, em contraste com o
que nós pensamos que eles são. Somos todos indivíduos complexos com muitas
camadas e ângulos.
 
UR: Todos
os relacionamentos no livro são complexos, começando com o de Valerie com sua
família. Qual deles você destacaria como o mais delicado?
JB: Eu acho que a relação de Valerie com a mãe é a
mais delicada, porque foi danificada e abalada, mas ainda é recuperável. Enquanto
que o relacionamento dela com o pai foi praticamente destruído, ainda há
esperança para Valerie e sua mãe. Mas tantas coisas ameaçam prejudicar esse
relacionamento que Valerie tem que ter muito cuidado para protegê-lo.
 
UR: Uma das
coisas que mais gostei em A Lista Negra foi a forma como pude sentir a dor,
confusão, raiva, alegria e até saudade que estavam dentro da Valerie. Você também
se conectou aos personagens? O quanto disso está relacionado ao fato de você
também ter sido vítima de bullying?
JB: Eu sempre me torno muito conectada aos meus
personagens. Quando termino de escrever uma história, sinto um pouco de saudade
dos meus personagens, e me descubro me perguntando como eles estão, como se
fossem pessoas reais.
Muito de A Lista Negra foi inspirado no
bullying que sofri quando era adolescente. E agora que já faz mais de 20 que
tive que lidar com isso, é importante para mim espalhar uma mensagem de
esperança para os adolescentes de que um dia o bullying acaba, e tudo fica
melhor.
 
UR: A
tragédia ocorrida no Colégio Garvin é o tipo de coisa que também acontece na
vida real. Como você reage quando vê notícias parecidas nos jornais, por exemplo?
JB: Parte meu coração. É tão evitável, e não se
iguala a nada a não ser dor para todos os lados da situação. Acho que sou a última
geração que consegue se lembrar do tempo em que um tiroteio num colégio era
algo impensável, algo que nunca poderia acontecer. Meus filhos não conseguem se
lembrar de uma época em que não tivessem que lidar com seus treinamentos de simulação
de perigo, ainda que seja algo que nunca imaginaríamos ser possível quando eu
era criança. É tão triste.
 
UR: Valerie
não desejava a morte de seus colegas e nem imaginava que Nick fosse realmente
decidir atirar neles. Você acha que, embora ambos acreditassem se conhecer extremamente
bem, não conseguiam enxergar o que estava realmente na mente um do outro?
Acha que talvez eles não quisessem ver?
JB: Eu acho que Valerie viu o que queria ver e
acreditava no que queria acreditar. Sim, por um lado ela achou que o que eles
estavam dizendo era “só papo”, e totalmente inocente. Mas da mesma forma,
Valerie amava Nick, e ela não queria acreditar que ele um dia seria capaz de
matar alguém. Nós não queremos acreditar nas coisas ruins sobre as pessoas que
amamos.
 
UR: Um dos
personagens, o psicólogo que ajuda Val a superar seus problemas, é inspirado em
seu marido. O quanto isso te ajudou na hora de escrever?
JB: Ele é
realmente uma pessoa divertida, empática e maravilhosa, e eu o conheço melhor
do que qualquer pessoa que pudesse “criar”. Conhecer sua forma de pensar,
suas manias, as coisas que ele diz, dentro e fora, foi o que fez do Dr. Hieler
um personagem muito real.
 
UR: O que
você pode nos contar sobre Perfect Scape?
JB: Perfect Scape é sobre uma garota chamada
Kendra, que é uma Little Miss Perfect [concurso de beleza infantil],mas que
está com problemas no colégio. Recusando-se a enfrentar seus problemas de
frente, ela foge e decide sequestrar seu irmão mais velho, Grayson, levando-o
com ela para curá-lo de seu TOC. É um pouco mais leve do que meus dois primeiros
romances, e é de sobre viagem, que explora a complexidade da relação entre
irmãos.
 
UR: Muitos
leitores, como eu, claro, adorariam te ver por aqui. Já pensou em visitar o
Brasil?
JB: Eu adoraria visitar o Brasil! Nunca se sabe…talvez
algum dia…