Você vai para as cidades de papel e nunca mais voltará.
John Green é autor best-seller de sucesso entre o público jovem e volgueiro do canal do Youtube “Vlogbrothers”, o qual toca com o irmão, Hank. Cidades de Papel é o quinto de seus livros a chegar ao Brasil, sendo precedido por O Teorema Katherine e A Culpa É das Estrelas, ambos lançados também pela Intrínseca, além de Quem É Você, Alasca? (Martin Fontes) e Will & Will (Galera Record). O mais novo a se juntar à festa é Deixe a Neve Cair (Rocco). Talvez seu livro de maior apelo com o público, A Culpa É das Estrelas tem adaptação cinematográfica com estreia nos EUA prevista para 6 de junho de 2014.
Quentin Jacobsen sempre teve uma paixão platônica por Margo — também popular como Margo Roth Spiegelman, pois, segundo palavras do próprio Q, o nome dela “era frequentemente pronunciado inteiro, em uma espécie de reverência silenciosa”. Não bastasse o milagre de ter Margo como vizinha, numa madrugada de maio ela aparece à janela de Quentin para levá-lo a uma aventura. Tudo bem, não é exatamente uma aventura romântica nem nada, está mais para missão de vingança. Mas é alguma coisa. Poderia ser o início para mudanças, certo? Depois de os dois terem tomado rumos diferentes na vida e se afastado, as coisas com Margo poderiam evoluir para algo mais, não é mesmo? Quero dizer, poderiam… Se ela não desaparecesse na manhã seguinte. No entanto, se engana quem pensa que as coisas param por aí. Com as pistas deixadas pela vizinha excêntrica, Q. parte numa busca que o guiará pelos mistérios de Margo Roth Spiegelman, mas também dele próprio, e aí aí que o verdadeiro tesouro da obra se esconde.

Margo sempre adorou um mistério. E, com tudo o que aconteceu depois, nunca consegui deixar de pensar que ela talvez gostasse tanto de mistérios que acabou por se tornar um.

Qualquer um com alguma experiência com os livros do Green sabe o que pode esperar de Cidades de Papel. Ele não decepciona nas sacadas, nos diálogos, no humor, nem na grade capacidade de envolver o leitor com os quais já estamos acostumados. É impossível deixar de observar a fórmula que o autor vem seguindo. Porém, ainda que repetindo combinações já vistas, esse livro se supera ao ir além.

Há ação e suspense suficientes para prender atenção. A partir daí, mostra sensibilidade ao utilizar a voz de um adolescente para contextualizar temas complexos da vida comum. Continua guiando as coisas em grande nível ao fazer das metáforas a trilha para o entendimento do enigma, das descobertas, da mensagem final.

Que coisa mais traiçoeira é acreditar que uma pessoa é mais do que uma pessoa.

Os personagens, divertidos, , não são o ponto alto, já que fazem parte do Pacote John Green de Estilo de Escrita. Às vezes dá até certa canseira para quem já passou pela leitura dos outros livros (Margo, por exemplo, poderia muito bem ser uma nova encarnação da Alasca). Sendo assim, eu os enxergo como bons colaborares responsáveis por alimentar a história até todo o potencial dela ser revelado. Todo o caráter reflexivo é que lhe confere força.

— Eis o que não é bonito em tudo isso: daqui não se vê a poeira ou a tinta rachando ou sei lá o quê, mas dá para ver o que este ligar é de verdade. Dá para ver o quanto é falso. Não é nem consistente o suficiente para ser feito de plástico. É uma cidade de papel. Quer dizer, olhe só para ela, Q: olhe para todas aquelas ruas sem saída, aquelas ruas que dão a volta em si mesmas. Todas aquelas casas construídas para virem abaixo. Todas aquelas pessoas de papel vivendo suas vidas em casas de papel, queimando o futuro para se manterem aquecidas. Todas as crianças de papel bebendo a cerveja que algum vagabundo comprou para elas na loja de papel da esquina. Todos idiotizados com a obsessão por possuir coisas. Todas as coisas finas e frágeis como papel.

Cidades de Papel é, para mim, o melhor trabalho de seu autor. Ele transmite sinceridade ao tratar das relações das  pessoas com o meio em que vivem e umas com as outras de forma sincera. No final, nem o próprio leitor é poupado.

Título original: Paper Towns
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 361