Com adaptação para os cinemas no horizonte, “Dias perfeitos” é o segundo romance do carioca Raphael Montes, visto como destaque entre nossos mais talentosos ficcionistas. Com contos publicados em diversas antologias de mistério, na “Playboy” e na revista americana “Ellery queen’s mistery magazine”, o escritor e advogado deixara sua marca já na obra de estreia, “Suicidas”, finalista dos prêmios Benvirá de Literatura, Machado de Assis e São Paulo de Literatura.
Nesse livro, Téo é um estudante de medicina solitário, calculista e aparentemente desprovido de emoções profundas ou positivas. O rapaz se preocupa em manter a fachada de normalidade — dizer a coisa certa na hora certa, aparentar empatia, demonstrar amor pela mãe deficiente, sempre mascarando a indiferença verdadeiramente sentida —, mas na realidade nunca se sentiu mais à vontade com um ser humano  do que quando está na presença dos cadáveres da aula de anatomia.
Ao conhecer uma mulher numa festa à qual nem queria ir em primeiro lugar, Téo se vê mudado. Agora Gertrudes, um dos corpos do laboratório, passa a não ser o único ser pelo qual ele já sentira afeto genuíno. Agora há a espirituosa, aspirante a roteirista, desbocada Clarice. Téo fica obcecado. Está convencido de que a ama, logo se encontrando disposto não só a forçar aproximação, mas a esquecer limites, ignorar leis… Qualquer coisa para fazer Clarice enxergar a beleza de seus sentimentos e despertar nela amor equivalente.
“Bebe,”
Ela fechou o rosto, ainda zonza. Parecia muito assustada também.
“É pra sua dor de cabeça. Vai melhorar.”
Evitava frases longas, pois não gostava de mentir para ela. Clarice bebeu. Devolveu o copo à cabeceira e moveu os lábios, sibilando uma pergunta. A voz falhou e ela tentou novamente:
“O que você está fazendo comigo?”
O tom dela o entristecia. Saiu do quarto, dizendo que não demorava. Na sala, zanzou de um lado para outro, sem ter para onde ir nem voltar. Cinco, dez, quinze, vinte minutos. Ao retornar, ela dormia outra vez.
“Dias perfeitos” não contém ilustrações, mas isso não impedirá que os leitores fiquem com imagens vividamente gravadas em suas mentes. As cenas nele contidas levam a sensações conflitantes. Conforme a história avança, somos imersos em perturbadores níveis diferentes da capacidade de perversão humana.
A habilidade de escrita do autor é indiscutível. Não importa se pela curiosidade, pela fome por mais de toda essa criação ou pela tensão, o fato é que o livro prende. Ele tem em si o poder de transportar a nós, que estamos conhecendo/observando, para a pele dos personagens. Personagens esses, aliás, incrivelmente bem caracterizados. Raphael segura com categoria um thriller que praticamente trabalha com dois protagonistas e conta com pequenas participações especiais de um ou outro personagem secundário. Não fossem tantas as coisas boas a serem destacadas, só isso já exigiria respeito.

Durante esses dias, ele havia sido bastante razoável com ela. Quem nunca se apaixonou sem ser correspondido? Quem não gostaria de mostrar que poderia ser diferente, que a história de amor poderia dar certo? Ele apenas fazia o que todos já tinham desejado fazer. Havia criado para si a chance de estar próximo de Clarice, de deixar que ela o conhecesse melhor antes do “não” definitivo. Era ousado e corajoso.

O protagonista nos amarra em tramas aparentemente lógicas, nos conduz até seus pontos de vista mesmo numa narração em terceira pessoa, na qual é comum que se tenha visão mais ampla dos acontecimentos. Se nesse tipo de narrativa o leitor poderia mais facilmente iniciar sua própria opinião, a mentalidade do protagonista e seu aspecto obsessivo se mostram imponentes. Ele quer acreditar, quer que os demais acreditem e, assim sendo, você acredita — nem que seja apenas no fato irrefutável de que ele é mentalmente perturbado.
Para mim, “Dias perfeitos” só peca no desenrolar final, quando deixa brecha para desconfiança sobre o que é narrado. O ponto máximo já tinha chegado antes do fim, portanto o percurso até a linha de chegada se deu num ritmo decrescente. Porém, numa obra tão bem construída sobre a obscuridade da tênue linha entre amor e obsessão, certamente há crédito suficiente para que isso (e um pouco mais?) seja relevado.
Livro Nacional
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 280