Resenha Kindred - Laços de Sangue Octavia E Butler

Edição capa dura de Kindred – Laços de Sangue (Foto: Kimberlly de Moraes)

O primeiro livro de Octavia E. Butler acaba de chegar ao Brasil e… UFA! Finalmente! Kindred – Laços de Sangue faz a estreia da Dama da Ficção Científica em nosso país mais de 40 anos depois do lançamento original. Com mais de meio milhão de cópias vendidas pelo mundo, uma adaptação em HQ e indicações a prêmios como o Locus Awars, ele chega aos leitores brasileiros pela Editora Morro Branco com direito a edições tanto em brochura quanto capa dura.

No centro desta história temos Dana: escritora, jovem e de mudança para um apartamento novo. Estamos no século XX, na década de 1970. O marido, Kevin, a espera para comemorar o aniversário de 26 anos. Nada fora do normal até que, de repente, nada está onde deveria.  Tem uma floresta no lugar das paredes, um rio logo à frete, uma criança se afogando. É assim que Dana se vê em pleno sul escravocrata dos Estados Unidos do século XIX. Jogada em uma viagem no tempo que não consegue entender, ela terá de descobrir como lidar as brutalidades em volta e os perigos que a esperam como mulher negra em uma sociedade escravocrata.

Kindred é uma verdadeira jornada de simbolismos, complexidade e significado. É um livro sobre viagem no tempo cheio de propósito, que te convida a sair do lugar comum e te guia em direção ao centro das questões a um ritmo frenético. Sem perder tempo, ele mostra a que veio logo nas primeiras palavras. Você entra no drama das personagens de cabeça, sem amenizações ou cinto de segurança.

Kindred - Laços de Sangue Octavia E. Butler

Título Original: Kindred


Número de páginas: 432


Editora: Morro Branco


ISBN: 9788592795191


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Laços de Sangue

Mais do que a tradução do nome original, a escolha de “Laços de sangue” como subtítulo da edição brasileira é um presente de contexto. Isso porque, ao pé da letra, Kindred seria algo como “Parentesco”/”Aparentados”, o que se refere à conexão que a protagonista descobre sem muito esforço logo de início.

Dana vai e volta de um século a outro de acordo com situações relacionadas aos antepassados. Assim, sem saber como ou por que, ela sempre se vê nas terras da família Weylin, formada por donos de uma fazenda onde vivem de seus vários escravos. E apesar de o ciclo começar no aniversário de Dana, ele se estendendo pelo tempo e pelos história, envolvendo desde as cenas mais cruéis até a rotina delicada dos envolvidos.

Relações de Poder

Rufus Weylin é responsável por grande parte do que é tratado sobre a natureza humana. Destrutivo, obsessivo, inconstante e especialmente complexo, ele está fora do esteriótipo do tema. Ao invés de seguir pelo caminho do bem ou mal, sem nuances, a autora toca na ferida com pessoas reais. Nada de personagem unidimensional. O que se vê é conflito de sentimentos, medo, esperança, total capacidade para crueldade e muito do questionamento do quanto alguém pode mudar, naturalizar construções sociais ou escapar das circunstâncias.

Dana é uma ótima protagonista justamente por conseguir guiar o leitor para dentro do que sente em cada situação. Confusão, estranhamento, repúdio: você estará junto com ela. É isso que a Octavia E. Butler não só quer como consegue. Ela vai te fazer refletir sobre a relação de poder entre senhores e escravos do antes e as condições de trabalho do agora. Vai falar sobre relacionamentos interraciais, a diferença do ponto de vista dos privilegiados em comparação ao das minorias, a objetificação feminina, o lugar do negro na sociedade como reflexo histórico.

Eu era a pior guardiã possível que ele podia ter, uma negra para cuidar dele em uma sociedade que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele em uma sociedade que via as mulheres como eternas incapazes.

Uma Revolução na Ficção Científica

Esta é uma obra narrada e escrita por uma mulher negra. Quantas vezes você pode dizer que já viu isso? Quantas vezes já viu acontecer no universo sci-fy?

Octavia E. Butler fez história no gênero dominado por homens brancos passando por cima da pobreza, do racismo e dos comentários de gente que não acreditava em seu potencial. Hoje ela sonhava se tornar uma autora best-seller aclamada pela crítica, capaz de ajudar outros a expandirem os horizontes, e conseguiu. Inspirou as bases afrofuturismo. Foi coroada Dama da Ficção Científica. Escreveu sobre heroínas fortes, reais, questionadoras e exclusivamente negras.

Kindred – Laços de Sangue é poderoso. A linguagem é envolvente; a emoção, na medida. Mesmo problemas pontuais como cenas convenientes demais ou menos relacionáveis são facilmente esquecidos com o passar das páginas. Deveria ser lido todos, a exemplo de Jogo da Velha, de Malorie Blackman. Aproveite para conhecer mais desse juvenil resenhado ainda nos primeiros do blog aqui!