“Na ilha” é um projeto, como diz a própria autora, divulgado pelo boca a boca. Inicialmente autopublicado, esse trabalho de estreia da americana Tracey Gravis Graves hoje conta com o apoio da Penguin como editora nos EUA, edições em mais de 10 línguas e a MGM como a preferida para adquirir os direitos de filmagem.

Anna Emerson aspirava mudanças para sua vida, mas ficar presa numa ilha deserta definitivamente não estava nos planos. A caminho da casa de veraneio da família de seu mais novo aluno particular, ela e o rapaz, T.J. Callahan, se veem num acidente que resulta na queda de seu avião e na permanência forçada  de ambos num local desconhecido, desafiador e cercado por tubarões. O pior: por tempo indeterminado.

No novo nada doce lar, a sobrevivência é uma luta diária. A esperança é um luxo que se esvai com o tempo. Na ilha, os anos  que separariam Anna e T.J. na cidade se reduzem. Lá, uma professora de inglês de 30 anos e um garoto 16 com câncer em remissão aprenderão lições de amor, coragem e superação que ninguém que não tenha passado pelo mesmo poderá compreender.

Os espirros continuavam, quase ritmados. Imaginando não apenas um tubarão, mas cinco, dez, talvez mais, girei várias vezes. Algo emergiu e levei um segundo para perceber o que era. Os espirros eram as ondas batendo em recifes que circundavam uma ilha.
Nunca senti tanto alívio na vida, nem mesmo quando o médico nos disse que o tratamento finalmente havia funcionado e que meu câncer tinha ido embora.

Mostrando-se rápido já de início, o efeito colateral do estilo de escrita “ligeirinho” de “Na ilha” foi deixar rastros de falhas de estruturação. Comigo, saibam disso, gerou canseira. De lá para cá, daqui para lá, os acontecimentos — em especial no começo — voam em tal velocidade que chega a ser difícil captar intenções da parte da autora, sentimentos dos personagens ou ainda emoções mais profundas sem que elas soem pouco naturais.

É difícil segurar um livro com basicamente dois personagens, mas é isso que Tracey tenta. Com os capítulos alternadamente narrados por Anna e T.J., ela aponta uma rotina que não deixa de gerar desconfiança. Acredito que escrever sobre o tema é algo complexo, portanto sendo necessário ter cuidado, fazer pesquisas, não perder o contato com a realidade para tocar a fantasia. Entretanto, não dá para confiar 100% no que está sendo contado nesse caso porque a maneira de fazê-lo contribui pouco no fator ambientalização. As informações sobre o realmente necessário para  conexão são insuficientes.

A impressão é de que a história se passa longe da civilização mas não pôde ser montada sem a utilização de artifícios mal adicionados. Exemplo leve: foi meio que coisa de louco lidar com a maré trazendo malas como sabonete, xampu, óleo de bebê e até creme depilatório sem dano algum, aparentemente infinitos e em cenas bem convenientes. Seria muito mais interessante ver os protagonistas se virando na marra. Se fosse para dar uma desculpa, que um deles tivesse treinamento especial, sei lá. Já seria preferível.

Se ela tivesse ficado doente, a única coisa que eu poderia ter feito era vê-la sofrer […] Eu não sabia se eu conseguiria seguir em frente sem ela. O som da sua voz, seu sorriso, ela — essas eram as coisas que tornavam a vida na ilha suportável. Eu a abracei um pouco mais apertado e pensei que, se ela acordasse, eu diria tudo isso.

“Na ilha” consegue ser bonitinho, sim. Da segunda metade em diante vem um ar novelesco pesado demais para conversar com a primeira, mas ele ainda pode ser fofinho se você escolher lê-lo com bastante boa intenção. Pode ser agradável. Apenas aconselho a não esperar muito.

Título original: On The Island
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 280