“Os últimos preparativos” é o primeiro romance da americana Maggie Shipstead, que antes vinha apresentando seu trabalho na forma dos diversos contos publicados. Já nessa estreia, ganhou destaque ao receber pelo livro os prêmios Dylan Thomas Prize e The Art Seindeinbaum Award For Fiction, do LA Times. Para completar, o livro ainda será adaptado para os cinemas pelas mãos de Sophia Coppola.
Daphne, a filha mais velha de Winn Van Meter, está para se casar, e todo mundo sabe que é muito mais agradável simplesmente aparecer num casamento do que ter de organizá-lo. Assim, com o grande evento para acontecer no próximo fim de semana, sobram motivos para exasperação generalizada que assola a ilha onde o grande dia se desenrolará. Enquanto Winn se dirige para o local, vestido da noiva na mala e agitação demais na cabeça, o que há de mais certo é o número de coisas que estão, estarão ou poderão dar errado.
Biddy, sendo uma mulher no papel de mãe e esposa dedicada, certamente não acrescentou “contratempos” em lista alguma durante planejamento da união de Daphne. Não que isso importe no fim das contas, obviamente. Não com Liv, a filha mais nova da família, procurando consolo pelo rompimento com o filho do suposto rival do pai justamente no lugar errado. Não com o ultraje de Winn por estar eternamente na fila de espera para entrada no Pequod, o clube da ilha, que provavelmente só continua a acontecer por interferência desse messe mesmo rival. E com Agatha por perto para despertar nesse homem orgulhoso da alta sociedade pensamentos de práticas adúlteras pela primeira vez na vida (justamente com uma amiga da filha), a receita para a realização de um dia inesquecível pelos motivos errados está mais que pronta.

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Estamos na reta final do ano, e isso me inspira de certa forma. As tacinhas lembrando champanhe ali na capa (não) ajudam. Mantenham isso em mente. Combinado? Muito bem, agora vamos concordar numa coisa: livros conquistam leitores pelos mais variados motivos, incluindo personagens carismáticos, enredo, premissa etc. Felizes aqueles que acertam em mais de um elemento e levam a bolada, ou seja, o sucesso. É a loteria da literatura. Agora, se cada elemento apostado num livro equivalesse a um número e estivéssemos falando, digamos assim, da Mega-sena da Virada, Maggie Shipstead não levaria o grande prêmio. Ela não acertou o suficiente nem para ganhar e ser uma daquelas pessoas que não aparecem para reivindicá-lo.
Mas não temas, pois nem tudo está perdido! O grande trunfo de “Os últimos preparativos” está na estrutura. Admiro-o pela forma como abraça todos os personagens, passeando entre as particularidades de suas personalidades e dramas. A história não é apenas sobre uma coisa, mas sobre vários temas, várias pessoas. Ah, e uma baleia encalhada! Os problemas vieram principalmente no carisma mal distribuído entre entre um ou outro e na importância dada a assuntos facilmente considerados banais/desinteressantes.
Eu descreveria o ritmo da leitura como gracioso. As páginas não lhe prenderão pelos acontecimentos em si, mas pelos questionamentos, encaminhamento e críticas que o próprio leitor se pegará fazendo. Faz parte. Essa não é uma comédia, uma historinha de amor ou ainda um drama familiar, por mais que tenha tons de tudo isso.
“Os últimos preparativos” é ideal para quem sabe considerar seus aspectos separadamente. Melhor ainda para quem concorda que não é preciso gostar de tudo para gostar do conjunto da obra. Ele chega lá, só não com honras. Como eu disse, nada de milhões na conta desse aqui.
Título original: Seating Arrangements
Número de páginas: 336
Editora: Record