Após a passagem pelo Brasil em setembro de 2015, Collen Hoover volta ao país nãoTalvez um dia presencialmente, mas com um novo livro. “Talvez um dia” é companheiro de casa editorial dos outros livros da autora, dentro os quais estão “Métrica”, “Pausa”, “Essa garota”, “Um caso perdido” e “Nunca, jamais”, todos também publicados pela Galera Record.

Neste livro, Sydney acabou de completar 22 anos e já fez algo inédito em sua vida: socou a cara da ex- melhor amiga. Até hoje, ela não podia reclamar da vida. Um namorado atencioso, uma melhor amiga com quem dividia o apartamento… Tudo bem, até Sydney descobrir que as duas pessoas em quem mais confiava se pegavam quando ela não estava por perto. Até que foi um soco merecido. Sydney encontra abrigo na casa de Ridge. Um músico cujo talento ela vinha admirando há um tempo. Juntos, os dois descobrem um entrosamento fora do comum para compor e uma atração que só cresce com o tempo. O problema é que Ridge tem uma namorada, e a última coisa que Sydney precisa agora é se transformar numa traidora.

Às vezes, acontece de um livro dar um tiro certeiro em quem lê. Assim, logo de cara. “Talvez um dia” conseguiu esse efeito comigo ao abordar o significado e o poder que a conexão com a música tem sobre a vida das pessoas. Parte disso se deve a minha própria paixão por letras, melodias, composições em geral, mas o mérito real e sincero deve ser dado à verdade com que isso foi passado às páginas. Aliás, mais do que isso, o mérito deve ser dado ao tato de falar da genialidade musical de um protagonista com deficiência auditiva, com todas as suas limitações, suas contribuições, sua comunidade própria.

Ainda falando nos pontos mais interessantes, outro destaque é a possibilidade de se enxergar o quanto a vida pode ser irônica. Sidney saiu de uma relação complexa para entrar que tem nas origens o mesmo mal da sombra da deslealdade. Uma exploração maior seria vantajosa até mesmo para o crescimento da protagonista. Mas é claro que tal coisa só seria possível se o leitor tivesse a oportunidade de conhecer verdadeiramente todos os personagens envolvidos. Ao invés disso, Hunter e Tori, dois dos mais importantes, que justificaram todos as principais decisões que dão sentido ao livro, ficaram no simples e unidimensional papel de pessoas más.

Outra questão incômoda é a violência. Sidney começa o livro com uma política de socar primeiro e pensar depois. Primeiro a situação foi desconfortável… Depois, comecei a questionar o que a banalização da temática deixava transparecer. Não é cool. Não é engraçado. Violência é violência. Então, quando eu menos esperava, chegaram discursos machistas tão naturalizados no nosso dia-a-dia que podem facilmente passar despercebidos para somar ao pacote. E, embora alguns personagens secundários tenham colaborado, mais uma vez questões delicadas voltam a surgir através de Sidney.

Por fim, chegamos ao fator romance. Uma série de escolhas erradas, e boas intenções mal compreendidas por seus próprios praticantes gerou uma confusão enorme, cheia de papéis torcidos, corações partidos, drama, drama, drama, um pouquinho de pressa aqui e acolá, depois mais drama. Bem, suponho que poderia ter sido pior… Mas, cá entre nós, houve em ponto em que simplesmente deixei de me importar.

No que diz respeito ao toma lá, da cá de elementos bons e ruins? “Talvez um dia” simplesmente não atingiu o ponto.