Jogo da Velha é o primeiro livro de uma série ambientada numa Inglaterra onde os Cruzes (negros) fizeram as grandes descobertas, realizaram grandes invenções e escravizaram os zeros (brancos). Nesse ambiente em que o racismo fala extremamente alto, nasce uma forte amizade entre a filha de um poderoso político e o filho de uma empregada pobre, que, obviamente, não é bem vista por ninguém. As escolas são separadas, os hospitais são separados, e embora existam pessoas a favor da mudança e pressões estejam sendo feitas para que a integração aconteça, o preconceito vindo  de ambas as partes é muito grande e os conflitos parecem estar longe de chegar ao fim.

Curiosidade sobre o que a autora aprontaria foi a primeira coisa a fazer com que eu me interessasse. É bem verdade que livros sobre preconceito existem aos montes, mas posso dizer que tive felizes surpresas. Tão logo o livro chegou às minhas
mãos, sabendo do romance no estilo Romeu e Julieta de Sephy e Callum, achei que
já sabia o que viria a seguir. Tinha sido levada a pensar que o romance entre os protagonistas, sua luta para ficar juntos, seria o foco do livro, enquanto na verdade ele é bem mais profundo que isso. O amor entre eles é um plano de
fundo, uma ligação que eles não podem romper, enquanto atos até mesmo de terrorismo acontecem.

Callum e Sephy ainda são muito jovens no inicio do livro e, diante de nós, eles passam por coisas que mudam os dois, que abrem seus olhos para a dura realidade e mudam o rumo que esperavam que sua vida fosse tomar. Fui guiada delicadamente por várias emoções como o medo, tensão, compaixão e até mesmo paixão, de forma que, enquanto os anos passavam para eles, entre seus encontros e desencontros, eu sempre me encontrava refletindo, chegando a me perguntar o que seria o certo e o errado, a que extremos seria possível chegar.

Uma coisa que me chamou atenção foi a forma como os Cruzes eram sempre sendo citados com letras maiúsculas enquanto os zeros eram sempre citados com minúsculas. Também achei interessante que os capítulos fossem narrados alternadamente por Sephy e Callum, sempre com um “O” ou um “X” junto com seus nomes. A narrativa do início variava entre leve e arrastada, até que finalmente chegou um ponto em que a coisa “engrenou”. Às vezes senti falta de alguma coisa nos personagens, talvez um pouco de coragem para enfrentar a si mesmo, além de algumas atitudes bobas também, mas nada que não mudasse conforme o tempo ia passando. Apesar de alguns exageros, a realidade criada pela autora não foge muita da nossa, da história que nós conhecemos. Meu coração muitas vezes ficou apertado e ao chegar ao final poderia até mesmo caber na palma da minha mão, tão pequeno que ficou.
Jogo da Velha é um desses livros bons que infelizmente são pouco conhecidos. Tem um pouco de conto de fadas, um pouco de realidade e agora tem também um pouco de espaço na minha ainda pequena lista dos melhores de 2012.

Livro: Jogo da Velha

Título Original: Naughts & Crosses

Editora: Galera Record

Número de páginas: 459

ISBN:  9788501077097