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[Resenha] Uma Garrafa no Mar de Gaza — Valérie Zenatti

“Uma garrafa no mar de Gaza” já foi trazido para mais de doze línguas, recebeu diversos prêmios literários e foi adaptado para os cinemas em 2011. É uma das quinze publicações da tradutora, roteirista e escritora Valérie Zenatti, nascida em Nice, na França, mas que passou a morar com os pais em Israel ao 13 anos de idade.

Tal Levine é uma adolescente israelense cuja cabeça está sempre cheia — de perguntas, medo, dúvidas, esperança. Não é incomum as tragédias que aparecem na TV acontecerem nos arredores de sua casa. Ela, que aos 17 anos já cogitou ser escritora mas não sabe se quer de fato ser pediatra ou cineasta, encontra no escape proporcionado pela escrita a válvula de escape particular. É também graças a isso que certo dia ela faz um pedido especial: que o irmão, prestando serviço militar perto de Gaza, lance ao mar uma garrafa contendo no interior uma carta.

A intenção era que, com alguma sorte, a garrafa fosse encontrada por alguma garota palestina da mesma idade, com quem Tal pudesse estabelecer contato. Ao invés disso, quem a recebe é um cético garoto que insiste em se identificar apenas como Gazaman. Enquanto a hostilidade aos poucos desvanece, novas coisas vão surgindo lado a lado com essa amizade improvável entre a israelense e o palestino. Nasce a partir daí esperança de que algum dia mais cartas, e-mails ou conversas sinceras sejam possíveis entre os dois povos.

Quando o medo volta, como nesses últimos dias, tenho a impressão de que todos esquecemos quem somos. Nos vemos como vítimas em potencial, como corpos que podem ficar ensanguentados e inertes só porque alguém escolheu explodir-se bem ao lado. Tenho vontade de saber quem eu sou, de que sou feita. Por que minha morte seria diferente da de qualquer outra?

“Quanta preciosidade em tão poucas palavras!”, me pego pensando. “Quanto de sensibilidade, verdade e profundidade cabe num livro?”, eu poderia perguntar. Sem razão para qualquer receio, Zenatti responde com “Uma garrafa no mar de Gaza” que sempre há espaço, sempre há como, sempre pode haver beleza quando existe talento nas mãos do artista por trás da obra.

Esse é um livro que aguça sentimentos usando como arma a simplicidade. Narrado com sinceridade tanto pelo Gazaman quanto por Tal, ele traz tristezas, insegurança, alegrias cotidianas e angústias sem firulas que gerem contestações. É ficção, mas é real. A empatia despertada não permite afastamento das questões desses personagens. Os fatos são fatos, estando ali para serem encarados. E quando você chegar à última página, boa parte do que os protagonistas compartilharam existirá no mesmo lugar descrito por eles, pelos mesmo motivos que nem eles nem eu conseguimos entender completamente.

Ela continua sua ofensiva, sem se dar conta. Ela me faz mal, ela me faz bem, me sinto oscilando sobre um fio: à direita para a luz, à esquerda para a noite escura, opaca, sem esperança.


Bem como deveria ser, pontos de vista se chocam nesse belíssima história na qual um dos maiores conflitos da atualidade é como o fantasma de outro personagem determinante. Eu gostaria de mais. Ainda desejo continuar com essas “pessoas”. Na falta dessa possibilidade, resta a releitura. Hora de tomar as devidas providências para assistir ao filme.

Título original: Une Boutielle Dans La Mer de Gaza
Número de páginas: 122
Editora: Seguinte

2 Comentários

  • Eduarda Lins
    17 de julho de 2014 at 02:16

    Essa é o tipo de resenha que te deixa com uma vontade enorme de ler o livro e chorar desesperadamente enquanto o ler…
    Lindo. Parabéns!
    Mais um livro para a lista de 2014 ^^)

    Beijos :*
    http://www.eduardalins.com

    Reply
  • Stefany Cândido
    17 de julho de 2014 at 17:07

    E quando terminei de ler essa resenha, só fiquei com vontade de me envolver nessa história e tentar entender com os personagens todos os conflitos e duvidas enfrentados por eles.

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