Menu

[Resenha] A Invenção das Asas — Sue Monk Kidd

Em dezembro de 2013, a existência de “A invenção das asas” se tornou ainda mais notável. Livro da mesma autora bestseller que estreou com “A vida secreta das abelhas”, ele foi então selecionado para o Clube do Livro de Oprah Winfrey. Nesse seu terceiro romance, Sue volta a abordar a questão racial sob um ângulo diferente do observado no primeiro, adaptado para os cinemas em 2008. É com maestria que ela nos leva à realidade preconceituosa do sul dos EUA do século XIX.
Inspirada pelas figuras históricas de duas mulheres oprimidas em busca de liberdade, a história segue os 35 anos das vidas de Sarah Grimké, autora, abolicionista e defensora dos direitos das mulheres, e Hetty “Encrenca” Grimké, escrava oferecida a Sarah como presente pelo aniversário de 11 anos de idade. Esse presente comum, embora indesejado mesmo pela própria aniversariante, marca 1803 como o ano do início de uma amizade capaz de despertar sentimentos, pensamentos e ações de cunho revolucionário. Nos papéis de filha de família rica escravocrata e propriedade, Sarah e Encrenca estão em posições sociais impossivelmente, mas se mantém ligadas através do tempo pelo desejo comum de conquistar a própria vida.

Bens e escravos. As palavras do caderno de couro apareceram na minha cabeça. A gente era como o espelho de moldura dourada e a sela do cavalo. Não pessoas de verdade. Não acreditava nisso, nunca acreditei um dia de minha vida, mas se você escuta os brancos por muito tempo, uma parte triste e derrotada de você começa a acreditar. Todo o orgulho por causa de nosso valor me deixou. Pela primeira vez, senti dor e vergonha por ser quem eu sou.
Depois de algum tempo, desci pro porão. Quando mamã viu meus olhos vermelhos, ela disse: “Ninguém pode escrevê num livro o quanto ocê vale”.

“A invenção das asas” é uma obra-prima. É emocionante, forte, triste, esperançoso, tocante, sincero. Trazendo as famosas irmãs Grimké (Angelina também aparece) e outras figuras reais de papel importante, tem até a deliciosa audácia de soar verdadeiro quando desvia dos fatos, fazendo valer a licença para dar mais lugar a personagens maltratadas pela crueldade da qual a sociedade  é capaz.
A cada capítulo, uma das protagonistas narra. Ainda me surpreende a capacidade de Sue de conectar o leitor com personagens que vivem num tempo tão diferente do nosso em tantas coisas. Seja nas descrições, na óbvia excelente pesquisa ou no talento para navegar entre as mentes das personagens se mantendo fiel à influência que o tempo tem sobre todos nós, Sue simplesmente dá um show.

Enquanto a presença de peso de Sarah intriga, Encrenca brilha. A junção das duas monta o quebra-cabeças responsável pelo resultado final. Ao menos durante a leitura, as lutas, as conquistas são nossas também. Mesmo quando estamos mergulhados na mentalidade da época, nota-se que ambas não só podem como devem ser percebidas como de igual valor tanto enquanto seres humanos quanto enquanto narradoras-personagem.

Ela estava presa como eu, mas presa por sua mente, pela mente das pessoas em volta dela, não pela lei. Na Igreja Africana, sr. Vesey dizia: “Cuidado, você pode ser escravizado duas vezes, uma vez pelo corpo e uma vez pela mente.”
Tentei dizer isso a ela. Falei: “Meu corpo pode ser escravo, mas não minha mente. Pra você, é o contrário”.

A verdade é que os períodos obscuros da saga da humanidade fazem parte da nossa história pessoal. É um terrível engano acreditar no contrário. Tempos nos quais mulheres nasciam e eram criadas para pertencer a um marido sem perspectiva diferente de futuro e escravos não eram pessoas de verdade? Bem, olhe os tons diferentes do mesmo pensamento ao redor. “A invenção das asas” nos faz lembrar. Sue nos faz sentir isso.

O que eu temia era a imensidão disso tudo — uma agente da abolição viajando pelo país com um mandado nacional. Eu queria dizer, quem sou eu para fazer isso, uma mulher? Mas a voz não era minha. Era de papai. De Thomas. Pertencia a Israel, Catherine e mamãe. Pertencia à igreja em Charleston e aos quacres na Filadélfia. Não pertencia, se eu pudesse escolher, a mim.

2 Comentários

  • Rafaela.
    28 de fevereiro de 2014 at 13:36

    Que dica super bem-vinda, Kim. 🙂
    Eu gosto tanto de leitura fortes e impactantes, sinto que também irei adorar esse livro.
    Li há alguns meses atrás um livro que abordava superficialmente essa mesma questão, então fiquei ainda mais empolgada para ler Invenção das Asas.
    Bela resenha, querida!

    Beijocas.
    http://artesaliteraria.blogspot.com.br

    Reply
  • juliano cesar de oliveira
    13 de junho de 2014 at 23:26

    Ótimo texto de resenha. Meus parabéns! Amei a maneira que vc usou para se expressar, me fez se interessar pelo livro….mas vc já leu o livro reverso… se trata de um livro arrebatador…ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos…..e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história…..acesse o link da livraria cultura…a capa do livro é linda ela traz o universo como tema.
    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=78725243

    Reply

Deixe seu comentário aqui: